Gonzague Saint Bris
Na noite de 15 de abril de 1452, Caterina, jovem serviçal da pequena cidade de Vinci, perto de Florença, deu à luz a um menino. Leonardo Da Vinci nascera bastardo. Era um raro caso de amor, uma agitação que tomou conta dos pais no verão tórrido da Toscana.
Nos arquivos florentinos, há uma nota do avô paterno de Da Vinci, Antonio, indicando a hora exata do nascimento da criança: “Nasceu-me um neto, filho de Piero, meu filho, em 15 de abril, um sábado, às três horas da madrugada”.
Piero se casara alguns meses mais tarde, depois da festa cristã da Epifânia de 1453, com uma jovem de 16 anos, Albiera di Giovanni Amadori, filha de um rico fabricante de calçados de Florença. Originários de Vinci, os ancestrais de Piero exerciam, desde o século XIII, a profissão de tabelião da célebre cidade, uma ocupação muito prestigiada.
Da Vinci morou com a mãe até o desmame, com aproximadamente 18 meses. Depois, mudou-se para a casa dos avós, onde foi criado em harmonia. Por ocasião de suas estadas em Vinci, a madrasta Albiera lhe devotava uma ternura maternal. Ela, que nunca pôde ter um filho e morreria muito jovem, ofereceu-lhe um afeto refinado e privilegiado.
Florença formou o artista. Desde os 12 anos, Da Vinci descobriu uma cidade nova em todo o brilho do Quattrocento, o lugar das flores, batizada por Dante de “Jardim do Império”. Em 1469, Lorenzo, o Magnífico (1449-1492), tomou o poder, e a família de Piero, pai de Da Vinci, se instalou em Florença.
O jovem entrou no ateliê de Andréa Verrocchio, o melhor dos ourives. Com 20 anos, em 21 de junho de 1472, estava enfim escrito no registro vermelho da corporação dos pintores, da qual São Lucas era o patrono. Da Vinci visitava e repertoriava as riquezas artísticas da cidade e freqüentava alguns cursos de filosofia na academia platônica, onde já era reputado pela arte de se vestir e pela amabilidade.
Ele era muito bonito, a julgar por um retrato feito aos 20 anos e um bronze de Verrocchio. Traços como olhos grandes, sobrancelhas sutilmente desenhadas, nariz fino, boca delicada, rosto perfeito e ovalado, cabelos encaracolados, ar pensativo, doce e sonhador estavam longe de deixar indiferentes mulheres e homens. A alegria contagiante, o gosto pelo gracejo, o senso de humor e a habilidade em fazer truques de magia contribuíram para seu sucesso na sociedade. O rapaz tinha uma linda voz e se acompanhava com graça com a lira de braço, espécie de viola com arco.
Sua época foi a do fausto, das festas e da ditadura da moda. Os jovens de Florença exageravam no luxo, no coquetismo e na extravagância, como seu amigo Sandro Botticelli. Desprezavam as tradicionais túnicas para vestir. Usavam longas calças bem modeladas. As moças, vestidos de cauda, com cintas adornadas de jóias verdadeiras ou falsas. Ele se diferenciava pelo ar de dândi, mas condenava aqueles que “tinham sempre como conselheiros o espelho e o pente”.
No início do ano 1476, ocorreu um evento tão chocante quanto revelador. Da Vinci foi acusado, com outros três jovens, de ter cometido crime de sodomia com um certo Jacopo Saltarelli, 17 anos, um notório prostituto. Os outros acusados eram os ourives Bartolomeu Pasquino, o alfaiate Baccinoe e o milionário Lionardo de Tornabuoni. Os quatro corriam o risco de ser enviados à fogueira. Depois de uma primeira audiência, em abril, o tribunal exigiu provas, mas não as obteve. O caso foi reaberto em junho. Houve nova investigação e, na segunda audiência, os juízes acabaram anunciando o arquivamento do caso.
Assim nasceu o rumor da homossexualidade do gênio, jamais provada. Alguns, observando sesu desenhos e escritos, espalham essa tese. Sigmundo Freud interpretou à sua maneira um sonho de infância de Da Vinci: uma ave de rapina que bate com sua cauda na boca da criança para faze-la calar. O pai da psicanálise fez a ilação de que o gênio “jamais abraçou amorosamente uma mulher”.
A vantagem do talento é que ele tem frequentemente o efeito de um passaporte. Seu protetor Lorenzo de Médici adivinhou muito tempo antes, nas maneiras do artista, a elegância de um diplomata. Por isso teve uma ideia: que ele fosse apresentar a Ludovico, o Mouro, duque de Milão, o presente suntuoso que lhe era destinado: uma lira de prata em forma de crânio de cavalo, obra com participação de Da Vinci.
O tempo em Milão deu ao criador um lado multidisciplinar. Lá ele propôs seus serviços de engenheiro militar e descreveu as máquinas mortíferas que tinha elaborado para conquistar vitórias. Os projéteis explosivos prenunciavam os mísseis com quatro séculos de antecedência, enquanto os esboços de um veículo blindado anunciavam a aparição dos tanques. Possuía flancos inclinados e circulares que constituíam uma couraça muito eficaz contra a artilharia inimiga. Quanto à metralhadora, não se pode deixar de admirar o gênio visionário do inventor.
Ao mesmo tempo, ele criou flautas, violas e carrilhões. Ainda em Milão, inventou o ar-condicionado para o salão de beleza de Beatrice d’Este e, para o marido dela, projetou uma belíssima estátua eqüestre de 8 metros de altura.
Da Vinci estava naquele momento à espera de uma ocupação e por isso buscava, ao lado do duque, o lugar mais seguro: organizador da vitória de um grande guerreiro. Mas Milão lhe dava também felicidade pessoal. Entre o Duomo da Corte Vecchia e a porta Ticinese, como a sombra do suntuoso castelo Sforza, residência do duque, Da Vinci encontrou a felicidade amorosa. Ele, que era tão discreto, dizia, então, sem rodeios: “O amor me dá prazer.”
Da Vinci é conhecido como um grande pintor, um excelente engenheiro, um inventor audacioso, um organizador de festas fabuloso, mas não se conhece tão bem o escritor excepcional, obsessivo até. Ele expressava sua filosofia de vida em lacônicas obras-primas. Aqui e ali, recolhem-se as pepitas de seu pensamento, as pedras preciosas de seus conselhos, os diamantes facetados que fazem brilhar os diferentes clarões da verdade.
Por toda a vida, Da Vinci foi o errante em busca do mecenas ideal. O que motivava a sua vida em ziquezague, suas partidas súbitas, esse desejo de fuga que sucedia a uma encomenda deixada por terminar, suas mudanças de endereço que aconteciam, frequentemente, por mudança de mecenas?
Três razões impulsionavam o artista: a primeira era geralmente o trabalho que lhe era proposto alhures; a segunda, a percepção intensa do sentimento de que podia lhe trazer um novo protetor; e, a terceira, uma nova tentação no domínio da pesquisa para esse homem da Renascença empenhado em tocar todas as notas do teclado de seus múltiplos talentos. Nesse novo deslocamento, de Milão a Roma, ele tinha trindade do desejo, da urgência e da diferença.
Ele deixou Milão em 24 de setembro de 1513. Depois de uma rápida passagem por Florença, chegou à cidade eterna em dezembro. Foi muito bem recebido por Giuliano. O pai deste, Lorenzo de Médici, tinha o hábito de dizer de seus três filhos: “Pietro é louco, Giovanni é sábio e Giuliano é bom”. Pietro morreu afogado, Giovanni tornou-se o papa Leão X, e Giuliano, valente e bondoso, foi seu protetor.
Mas por que a temporada de Da Vinci na magnificência de Roma foi o momento mais infeliz de sua vida? Tal artista não podia ser deixado de lado da renascença romana, mas o certo é que ele chegou lá demasiado tarde. Michelangelo e Rafael já haviam ocupado os papéis principais.
Decepcionado, amargurado e envelhecido, Da Vinci errou como alma penada pelas vastas salas e sob os tetos sobrecarregados e pomposos do Vaticano. O papa, longe de proteger a criação do artista, passou para o lado de seus perseguidores, impondo-lhe um criado alemão do qual o mestre toscano se queixou por ser supostamente um espião que seguia seus gestos e afazeres com horrível mesquinharia.
Esgotado por haver desejado reinterpretar a totalidade do mundo, quanto tempo lhe restava para finalizar os próprios desafios artísticos ou para dar os últimos retoques a suas obras-primas uqe demandavam uma perfeição suplementar? Da Vinci enviou a seus mecenas algumas mensagens que mostram a que ponto a clemência pode se tornar uma arte: “A perfeição exterior é a beleza, a perfeição interior é a bondade”.
No fim do túnel da humilhação esperava-o a luz de um novo reconhecimento. O papa pisara sobre ele em Roma. Mas, em Bolonha, a aurora do novo rei da França o iluminou. Francisco I (1494-1547) era o mecenas ideal. Ele amava e admirava o artista.
Francisco perdera o pai muito cedo, e Da Vinci não tinha filhos. Quando o rei de Amboise deu ao mestre toscano o pequeno castelo de Clos-Lucé foi para oferecer ao gênio italiano um fim de vida em forma de Renascença esculpida. Pelo caminho secreto subterrâneo, que ligava o castelo real ao castelo do artista, Francisco I ia visitar seu amigo genial. Ele o chamava de “meu pai”.
Se Da Vinci não concluiu a totalidade das obras que começara, atingiu a perfeição pessoal. O pintor e arquiteto Giorgio Vasari conta como ele era percebido: “O esplendor que irradiava de seus traços maravilhosos serenava toda alma triste. Seu discurso inclinava para um lado ou para outro as vontades mais obstinadas. Este espírito dotado por Deus de tanta graça possuía um imenso vigor de raciocínio, calcado na inteligência e na memória. Suas mãos, graças ao desenho, sabiam expressar tão bem seu pensamento, que ele dominava e confundia os mais vigorosos talentos com seus argumentos. Da Vinci tinha uma maneira de conversar tão agradável que atraía todos os corações. Mais ou menos sem fortuna e trabalhando de modo irregular, sempre teve criados, cavalos de que gostava muito e todos os tipos de animais, dos quais se ocupava com interesse e imensa paciência. Sua força domava os furores mais violentos. Em sua liberalidade, acolhia e alimentava todo amigo, rico ou pobre, que tinha talento ou mérito”.
Continua Vasari: “Em Clos-Lucé, na morte de Da Vinci, em 2 de maio de 1519, ficou-me a imagem transmitida por uma testemunha, a de um grupo de mendigos no enterro. Sua aparição foi fulgurante: precedendo o cortejo fúnebre, eles avançavam em pleno dia pelas ruas de Amboise, portando tochas. Suas roupas eram farrapos ou estavam remendadas, os rostos eram macilentos e os cabelos não tinham brilho. Era a vontade de Da Vinci que eles fossem os últimos a estar com ele. Ele quis ser acompanhado, até o fim, pela luz dos pobres”.
Texto publicado na Revista História Viva nº 27







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