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ITÁLIA DA RENASCENÇA: UM ELDORADO

  • 24 agosto, 2011
  • HOMEM VITALVIÁTICO
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  •  Elisabeth Crouzet-Pavan


                Quando os exércitos franceses partiram para a conquista do reino de Nápoles, em 1494, os boletins do rei Carlos VIII (1470 – 1498) não relatavam apenas as vitórias militares. De uma entrada triunfal a outra, o soberano e sua caravana se maravilhavam.
                Secretários e poetas relatavam as festas e o luxo das recepções. O monarca escreveu um relatório da viagem. Naturalmente, anotou os encontros políticos, mas mostrou também o quanto admirava o espetáculo da Itália: a descoberta do convento de Pávia, o circuito em Florença, a igreja de São Lourenço e a capela do palácio dos Médici.
                Em Roma, a visita durou três dias, para que todos admirassem as igrejas e as relíquias sagradas, como o Capitólio e o Coliseu. Depois da queda das praças fronteiriças ao reino de Nápoles, vieram a cidade e as delícias, as laranjeiras e as estátuas antigas, o clima ameno e as obras de arte em pedra.
                O paraíso fora enfim localizado na península itálica. Nada espantoso que o éden italiano fosse objeto de todos os desejos. Franceses, espanhóis e alemães disputavam esse eldorado e suas riquezas. Ao término da primeira expedição, Carlos VIII julgou prudente enviar a seu reino uma parte das maravilhas que encontrou. Em comboios, um por mar, outro por terra, os troféus foram despachados: esculturas e tapeçarias, peças decorativas de couro pintado e dourado, baús, relicários, objetos de marfim, quadros, mapas, sedas, peças de veludo, instrumentos de música e os 1140 volumes da biblioteca dos reis de Nápoles.
                Homens também tomaram a rota do norte, como o escultor Guido Mazzoni e o arquiteto e humanista veneziano Fra Giocondo. Mestres de todas as artes e ofícios juntaram-se ao grupo. Eram miniaturistas, pedreiros, jardineiros, bordadores, marceneiros, perfumistas e construtores de órgãos. Nada foi esquecido para tentar reproduzir na França um pouco do “milagre”.
                O deslumbramento dos franceses projetava uma história singular, a da Renascença e a de seu próprio mito. 
                Em conseqüência dos incessantes movimentos de tropas, os campos foram devastados, e as cidades, condenadas à fome, antes de tomadas e pilhadas. Florença se opôs, inicialmente, ao crescimento do poder de Milão e aos desejos hegemônicos dos Visconti, que dominaram parte do reino entre 1378 e 1447. a cidade pôs na batalha os recursos financeiros e o talento retórico dos humanistas, que transformaram a guerra em um afrontamento ideológico.
                A liberdade e os valores republicanos, defendidos pela comuna florentina, se opunham à tirania que o senhor de Milão queria impor sobre a Itália. Depois, a República de Veneza e o ducado de Milão lançaram-se em um enfretamento. Com a Paz de Lodi (1454), o tempo dos grandes conflitos acabou. A chamada “liga italiana”, com a participação de todas as regiões, criou um espaço de discussão de interesses comuns e propiciou um equilíbrio de forças.
                A crônica política de seus Estados – salvo em Veneza, onde a estabilidade reinava graças a sólidas instituições republicanas – era quase sempre agitada. Depois da morte de Afonso, o Magnânimo (1396 – 1458), o sul, unificado sob sua autoridade, ficou novamente dividido. De um lado, o reino de Aragão tomou a Sicília. Seu filho bastardo, Ferrante (1423 – 1494), herdou o reino de Nápoles, sacudido pelas freqüentes revoltas dos barões.
                O poder pontifical, na segunda metade do século XV, tentava restaurar a autoridade em um Estado territorial que por muito tempo foi o nteponto fraco da Itália. Mas cidades e senhores aproveitaram-se da crise. As famílias dos Malatesta, em Rimini, e dos Monefeltro, em Urbino, por suas empreitadas guerreiras, seu papel na cena italiana e a amplidão de suas encomendas, mostravam a emancipação, o poder e a riqueza das dinastias locais.
                Em Florença, os Médici, desde Cosme, o Velho (1389 – 1464), puseram em prática uma senhoria informal que deu ainda maior estabilidade a Lorenzo, o Magnífico (1449 – 1492), depois da conjuração dos Pazzi (1478). Se a antiga comuna não havia sido abolida, os Médici, amparados por um poderoso grupo de interesses, sustentaram verdadeiramente Florença e conseguiram estabelecer uma posição inédita de domínio.
                O esquema consistia em manipular o sistema eleitoral e em colocar aliados em todas as engrenagens do poder. Entretanto, dependia da habilidade política de Lorenzo, de sua capacidade de criar a adesão por todos os meios (patronato, diplomacia e magnificência), e essa fragilidade explica por que o arranjo se desagregou mais tarde. Com sua morte, se aqueles que tinham “poder nas mãos” choravam, os outros grandes rejubilavam-se, diz um texto da época. A liberdade que diziam reencontrar lhes abriria novamente o caminho do governo.
                Em Milão, depois de uma efêmera restauração republicana, com o restabelecimento de antigas instituições comunais e da liberdade, os Sforza, com Francesco (1401 – 1466), substituíram os Visconti. Mas a legitimidade dessa dinastia de recém-chegados foi contestada, e os resistentes assassinaram Galeazzo Maria Sforza, um príncipe que consideravam tirano.
                Ainda assim, em imagens recorrentes, o despertar, a renovação e o retorno às antigas luzes eram evocados nos textos da época. A Itália renascia das cinzas. Uma ruptura foi marcada e dizia a respeito principalmente ao universo figurativo e às letras. Na metade do século XIV, Petrarca, repetindo que com ele terminava “a idade das trevas”, abriu o caminho e anunciou que uma nova era chegaria. No início d século XV, artistas e humanistas italianos foram tomados pela ideia de que uma idade de ouro começava. E, Florença – e, em seguida, no restante da península – uma revolução das letras e das artes estava em vias de acontecer.
                Depois dos séculos bárbaros, havia chegado o tempo da restauração de sabedorias da Antiguidade. A evolução cultural em curso era a do humanismo. Rejeição à escolástica, ou seja, a assuntos, métodos e autoridades que tinham dominado a ciência universitária medieval, era a ambição da primeira. A rejeição, que recebia ataques repetidos, abarcava desde as obras de Petrarca às de Erasmo de Roterdã.
                Da mesma forma, tornou-se imperativo o conhecimento mais completo e crítico da literatura grega e latina. O objetivo era colocar em movimento uma redescoberta da Antiguidade pelo estudo das línguas clássicas, o conhecimento aprofundado dos autores dos autores latinos e gregos, a reabilitação desses autores, de seu estilo, de suas lições e de seus modelos inigualáveis. Assim seria moldado o homem novo e restituído o homem ao homem.
                Certamente, nada começou em Florença. Desde o fim do século XIII, nas cidades universitárias e nos cursos senhoriais do norte, Pádua ou Verona, um primeiro trabalho sobre a língua tomava forma, por meio da imitação dos antigos e da pesquisa filológica. A partir do fim do século XIV, o humanismo tendeu, contudo, a se deslocar para a Toscana e a Florença.
                Numerosos foram os florentinos nessas gerações de intelectuais que, entre 1375 e 1450, traduziram as obras latinas e gregas, escreveram cartas, diálogos, tratados, histórias e comentários. O humanismo era servido por mestres e academias. Mas também triunfou nas cortes, onde se agregaram poetas e artistas, juristas e sábios, uma espécie de aristocracia bem hierarquizada. Naqueles círculos, a nova cultura era inventada. Ela se desenvolveu em Roma, junto à cúria e ao clero romano. Muitos humanistas seguiram, mais tarde, o papa Eugênio IV (1431 – 1447) nos concílios de Florença e de Ferrara. Sob o pontificado de Nicolau V (1447 – 1455), a furão da tradição da cúria e do programa humanista foi realizada.
                A mesma ruptura ocorreu em Nápoles a partir do reinado de Afonso, o Magnânimo. Em sua corte, abundavam humanistas. Ao rei eram dedicados discursos, traduções e obras de eloqüência. Ele multiplicava as encomendas de objetos de arte e de livros. Era por seu intermédio que o humanismo se difundia ao sul da península. Rodeado de letrados, promovendo transcrições e traduções, Afonso testemunhava um amor pela Antiguidade que ia até a paixão.
                Na segunda metade do século XV, o novo estilo já predominava, primeiro em Florença e depois nos outros centros. Vieram os trabalhos de Piero della Francesca. Em 1451, ele pintou Sigismondo Malatesta diante de São Sigismundo e, em 1452, iniciou o ciclo de Arezzo, com as encomendas feitas ao arquiteto Leon Battista Alberti. Os Médici, Lorenzo e, antes, Cosme, o Velho, procederam a uma verdadeira exportação de artistas florentinos. A arte deveria servir ao prestígio de Florença e daquele que a governava. Lorenzo trabalhou para que a cidade se tornasse a capital cultural da Itália.
                Leonardo da Vinci (1452 – 1519) foi enviado à corte de Milão. Contudo, Florença não detinha mais o monopólio dos talentos. Em 1486, o mecenas Giovanni Tornabuoni encomendou ao pintor Domenico Ghirlandaio a decoração da capela familiar de Santa Maria Novella, e o celeiro toscano de artistas por vezes penou um pouco para conseguir atender a todos os pedidos. Mas chegou o tempo dos artistas do norte: Andréa Mantegna em Mântua, Giovanni Bellini e Vittore Carpaccio em Veneza.
                O deslumbramento dos franceses revelou o milagre italiano. Os conquistadores observaram monumentos e jardins. Louvaram as pinturas e a riqueza das bibliotecas. Sempre sublimaram a abundância e a beleza. Naquelas cidades, a riqueza acumulada na época do apogeu econômico medieval, graças ao comércio e aos negócios financeiros, foi logo levada para a arte. Reinava na Itália, apesar das dificuldades, uma luz que surpreendia os estrangeiros e lhes despertava o desejo de leva-la muito além das montanhas.

    Texto publicado na revista História Viva n. 27       

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